A autoexplicação parece coisa académica, mas a ideia é simples. Em vez de olhares para uma palavra ou uma regra e acenares com a cabeça, explicas a ti próprio, em poucas palavras, o que significa, porque é usada ali e o que está a fazer numa frase real. Não é estudar com mais força. É pensar em voz alta durante uns segundos.
Se conheces aquele padrão em que lês uma coisa, percebes, sentes-te bem e no dia seguinte já desapareceu, a autoexplicação foi feita precisamente para essa distância entre «reconheço» e «consigo dizer sozinho».
O que é realmente a autoexplicação
Pegas num pequeno pedaço de língua e respondes, por palavras tuas, a uma ou duas perguntas simples sobre ele. Por exemplo:
- porque é que aqui é past simple e não present perfect;
- em que é que «differ» é diferente de «different»;
- porque é que se diz «in the morning» mas «at night»;
- o que significa esta palavra nesta frase, e não só no dicionário?
A ideia é transformar a leitura passiva em trabalho ativo. O trabalho ativo mostra depressa o que percebeste mesmo e o que só leste por alto.
Porque é que resulta especialmente bem com línguas
As línguas fazem as pessoas tropeçar de duas formas previsíveis. Primeiro, «percebo quando vejo» não é o mesmo que «lembro-me quando preciso». Segundo, o significado depende do contexto e não apenas de uma definição. A autoexplicação trata das duas coisas: obriga-te a tirar o significado da tua própria cabeça em vez de o aceitar da página, e liga o conhecimento a uma situação em vez de a uma regra seca.
Além disso, encontra depressa os pontos fracos. Se tentas explicar alguma coisa e só há nevoeiro na cabeça, encontraste exatamente o que precisa de mais um exemplo. O efeito de geração assenta no mesmo princípio, como explicamos em o efeito de geração na aprendizagem de línguas.
Dois tipos de autoexplicação: vocabulário e gramática
As perguntas que fazes a ti próprio dependem do que estás a aprender. As palavras e as regras pedem apoios um pouco diferentes.
Para o vocabulário: o que é isto na vida real?
Os significados do dicionário parecem arrumados, o uso real é mais confuso. Para uma palavra, tenta responder:
- é uma coisa, uma ação ou uma opinião;
- é neutra ou informal;
- com que palavras costuma aparecer;
- em que situação do dia a dia é mais normal encontrá-la?
Pega no verbo inglês «to miss». Uma explicação inútil é «miss significa miss». Uma útil: «To miss é quando alguém ou alguma coisa falta e sentes essa falta. Podes ter saudades de uma pessoa, de casa, ou perder uma oportunidade. Tem tudo a ver com ausência.»
Não estás a escrever uma redação. Estás a construir um gancho mental para que a palavra volte mais depressa.
Para a gramática: qual é o significado, e não a forma?
Na gramática, as pessoas decoram muitas vezes regras sem nunca as notarem em frases reais. Aqui ajudam estas perguntas:
- o que é que quem fala quer destacar;
- trata-se de um facto, de um processo, de uma experiência, de um resultado ou de um plano;
- se mudar a forma, o significado muda ou fica apenas a soar mal?
Para o present perfect, uma explicação por palavras simples podia ser: «Liga o passado ao agora. “I’ve lost my keys” quer dizer que agora não tenho as chaves. O que conta é o resultado, não o momento.»
Erros comuns que tornam a autoexplicação inútil
A autoexplicação pode falhar, quase sempre por razões simples. Cruzam-se com os hábitos descritos em erros com flashcards que fazem esquecer palavras novas, mas quatro são típicos deste método.
Repetir a formulação do manual
Se copias uma definição, o cérebro fica no modo «li, portanto percebi». Um teste rápido: conseguias explicá-lo a um amigo numa mensagem curta, sem termos de gramática?
Fazê-la demasiado longa e demasiado esperta
A autoexplicação tem de ser curta, senão deixas de a fazer. Uma boa meta: uma ou duas frases para uma palavra, duas a quatro para uma regra e um exemplo que te diga mesmo alguma coisa.
Não ter um exemplo pessoal
Uma afirmação sem exemplo fica abstrata, e o exemplo é o gancho. Se não te ocorrer nada, usa o quotidiano mais aborrecido: o café, o trabalho, as compras, o caminho para o trabalho, os planos para o fim de semana.
Explicar uma vez e nunca mais voltar
A autoexplicação não substitui a revisão, torna-a mais eficaz. Se explicas uma palavra uma vez e nunca mais a vês, o cérebro vai deixá-la ir na mesma.
Frases de apoio que vais mesmo usar
Pensa nelas como modelos rápidos para completar, e não como teoria.
Frases de apoio para vocabulário
- «Esta palavra é sobre …, normalmente na situação …»;
- «É diferente de … porque …»;
- «Usava-a quando …»;
- «O exemplo mais simples é …».
Frases de apoio para gramática
- «Aqui o significado é …, por isso escolho …»;
- «Se quisesse só dizer um facto, usava …, mas aqui o que interessa é …»;
- «Esta frase destaca …, e não …».
O teste de honestidade
Pergunta a ti próprio: consigo inventar dois exemplos em 20 segundos? Se não, ainda não explicaste, só reconheceste.
Como a meter na prática diária sem a detestar
O objetivo não é a perfeição, mas um hábito minúsculo de 30 a 90 segundos, colocado onde mais importa.
Passo 1: usa-a só com as palavras que te irritam
Não expliques todas as palavras. Escolhe a que já viste três ou quatro vezes e ainda não consegues apanhar depressa, a que confundes sempre com outra, ou a que interessa para o teu tema atual.
Passo 2: uma palavra, um significado, um exemplo
Se uma palavra tem cinco significados, não os engulas todos. Fica com o mais comum. Os outros podem esperar.
Passo 3: di-lo em voz alta ou escreve-o
O cérebro adora fingir que já sabe. A boca e o teclado apanham-no em flagrante.
Passo 4: volta a ela durante a revisão
A explicação fica mais forte sempre que a palavra regressa e voltas a dizer o que é e onde a usarias. De cada vez custa menos.
Prática nos dois sentidos: porque é que a autoexplicação reforça o vocabulário ativo
Reconhecer uma palavra é só metade do trabalho, a outra metade é produzi-la. A autoexplicação resulta melhor quando praticas nos dois sentidos: vês a palavra e explicas o significado, e vês o significado na tua língua, tentas lembrar-te da palavra e explicas porque é que é aquela que serve.
Assim constrói-se um caminho de ida e volta, e numa conversa real precisas quase sempre do caminho de volta: tens uma ideia e precisas da palavra. Treinar esse caminho também te vai tirando o hábito de traduzir na cabeça, como explicamos em como parar de traduzir na cabeça quando falas.
O que fazer hoje em 15 minutos
- Escolhe cinco palavras que «mais ou menos» conheces mas nunca usas.
- Escreve para cada uma uma explicação de uma ou duas frases.
- Junta a cada uma um exemplo pessoal do mais banal que houver.
- No fim, tenta lembrar-te de pelo menos três a partir do significado.
Se quiseres um limite útil, dá-te 20 segundos por palavra. Acaba com o perfeccionismo.
A autoexplicação com o My Lingua Cards
O My Lingua Cards dá-te muito material para este hábito. Cada cartão mostra a palavra com a transcrição e o áudio, a tradução, uma descrição, uma frase de exemplo e uma imagem, e por baixo do cartão podes abrir uma descrição completa, sinónimos, antónimos e uma dica para memorizar, quando a palavra os tem. É exatamente o que precisas para responder a ti próprio, em poucos segundos, o que é e onde a usarias. A sessão de aprendizagem traz de volta as palavras conhecidas para revisão, misturadas com palavras novas, por isso há sempre um momento para repetires a tua explicação.
A prática inversa é uma sessão à parte, da tradução para a palavra, e é aí que a autoexplicação se transforma em recordação. Uma forma simples de experimentar: na sessão de hoje escolhe as palavras que ainda vacilam, explica cada uma em voz alta numa frase com o teu próprio exemplo, e vê como se portam na prática inversa uns dias depois. Podes começar com um mês grátis e 300 cartões.